Estudo literatura japonesa já há alguns anos, desde meu mestrado em Língua, Literatura e Cultura Japonesa na Universidade de São Paulo, para ser mais precisa, quando pesquisei os contos do escritor Osamu Dazai que traziam narradoras-protagonistas. Paralelamente à pesquisa, também traduzi esses contos, que foram publicados na coletânea Mulheres, pela Estação Liberdade, em 2022.
Desde então, a figura feminina na literatura japonesa foi uma das temáticas que passaram a me interessar. Quando entrei no doutorado em Teoria e História Literária na Unicamp, meu projeto era analisar a figura feminina nas obras de alguns autores, porém, como muitas vezes ocorre na vida acadêmica, e na vida em geral, o foco do projeto mudou e passei a pesquisar e a traduzir autoras japonesas.
No entanto, o projeto anterior não morreu completamente e acabei traduzindo alguns contos dos autores que pensava em estudar e procurei um meio de publicá-los. Para minha alegria, a editora O quarto dos livros não só se dispôs a publicá-los, como me propôs a criação de um selo de literatura japonesa. Foi assim que nasceu o Selo Hotaru.
Sugeri o nome "Hotaru", “vaga-lume” em japonês, pelo simbolismo associado a esse inseto na cultura japonesa, na qual ele representa o amor, a beleza, a efemeridade, a alma dos mortos etc. E também porque me lembro da Série Vaga-lume, a coleção de livros que tinha o propósito de levar a literatura ao público jovem, criada por Jiro Takahashi, um dos fundadores iniciais da Estação Liberdade, editora conhecida por publicar literatura japonesa no Brasil e para a qual também realizo trabalhos. Por coincidência, Jiro também foi coordenador do Programa de Aprimoramento em Tradução Literária da Casa Guilherme de Almeida de que tive o prazer de participar em 2021. Enfim, "Hotaru" é uma palavra polissêmica tanto para os japoneses quanto para mim.
O primeiro volume do selo, A garota que virou uma carpa, é uma coletânea de cinco contos de diferentes escritores: Riichi Yokomitsu, Jun’ichirō Tanizaki, Katai Tayama, Ango Sakaguchi e Osamu Dazai. O público jovem, já familiarizado com os personagens do mangá e animação Bungo Stray Dogs agora poderão ler os textos dos autores reais.
Os volumes seguintes seriam um desdobramento dessa primeira coletânea, cada um dedicado a um desses mesmos autores, alternando coletâneas de contos e novelas. Pelo cronograma, o próximo nome da lista é Osamu Dazai, seguido de Jun’ichirō Tanizaki. Esse é o plano, mas, como já devem ter percebido, planos podem mudar. Pode ser que o selo se estenda para além desse projeto inicial, ou não.
Sei que meu gosto pode ser, como diríamos, um tanto peculiar. Minha ideia é traduzir alguns autores e obras da primeira metade do século XX pouco contemplados em traduções para o português, coisas que li e de que gostei, outras que li e tive vontade de traduzir à minha maneira. Textos nem sempre confortáveis, belos ou doces. Será minha forma de mostrar a diversidade da literatura japonesa em parceria com a editora.
Além de tornar acessíveis algumas obras e autores pouco conhecidos por aqui, a proposta do Selo Hotaru é aproximar novos leitores da literatura japonesa. Queremos ver qual será sua reação, e seguiremos com o selo de acordo com sua receptividade. Pode ser que o voo de nosso vaga-lume não seja longo, mas como ele também simboliza a efemeridade, essa possibilidade já está contemplada.
Julho de 2026
